Gervásia I

Gervásia olhava insistentemente para o relógio na parede da repartição. As horas escoavam lentamente, já arrumara diversas vezes às fichas dactiloscópicas, espiara pela lente da lupa sem enxergar nada. Revisara as teclas do arquivo examinando, tentando adivinhar pq não funcionava. Era sucata que o governo militar comprara dos alemães para usar na repressão, onde tudo era anotado, cada deslize do cidadão. Aquele arquivo enorme um verdadeiro dinossauro, só girava com a manivela. A manutenção só era autorizada depois das licitações competentes....hoje sabemos o porquê!! Depois dos escândalos dos mensaleiros. Ela puxa a tampa do arquivo, guarda as fichas e a lupa, objeto de grande valor. Quando chegou ao departamento assinou um termo de compromisso, no qual era responsável pela preciosa “lupa”, importada, valia o salário inteiro do mês. Pegou a bolsa, a garrafa térmica e caminhou lentamente para o relógio ponto. A fila já estava formada. Os jovens com brincadeiras impacientes, os funcionários mais antigos com uma postura robotisada indiferentes aos empurra-empurra dos estagiários. A fila lentamente foi chegando ao fim.. Apertando a bolsa com as mãos tremulas seguiu em direção a parada do ônibus. O vento forte e frio, as primeiras estrelas tremulavam no céu limpo do entardecer. A fila do ônibus era grande na hora do pique, finalmente embarcou no coletivo lotado, empurra aqui, um cotovelo nas costelas machucando, foi abrindo caminho até a porta da saída. O cheiro de corpo sem banho exalava causando náuseas. Alguém pediu para abrir uma janela, um olhar feroz respondeu ao pedido desarmando qualquer investida. Dá sinal, não quer perder o seu ponto. Salta no meio fio da calçada esburacada. Uma lufada de vento gelado penetra pelo pescoço desabrigado, levanta a gola do casaco e corre em direção aos blocos de moradia popular. Prédios feios , quadrados, pareciam uns caixotes esburacados sem cor definida. As poucas árvores com os galhos pelados sem folhas formavam estranhos desenhos no lusco-fusco do anoitecer. As luzes do corredor queimadas, chega logo a sua porta no final do corredor. Abre ligeiro e acende a luz. Tudo tão gélido, o sofá puído, a estante com os bibelôs pobres grotescos. Os livros... esses, sim, tinham vida . Uma aura azulada exalava deles prometendo aventuras mil, prazeres inimagináveis. Olhou em volta, largou a bolsa em cima da cama. A colcha de crochê já gasta, a cortina já rala não protegia do vento que assobiava pela persiana entrando nas frestas. Olhou em volta com um olhar sem vida e foi tomar um banho. Despiu-se dobrando meticulosamente às roupas do trabalho, para não amassar colocou numa banqueta aos pés da cama estreita. Ligou o chuveiro, bem quente, pegou o sabonete e a esponja natural. Seus ossos saltavam magros, as carnes haviam sumido. Leu, não sabe onde, que era saudável fazer massagens bem fortes com a esponja nos órgãos internos, anos a fio esfregou o estomago, o fígado, os intestinos, para que os mesmos se mantivessem saudáveis. A princípio foi uma pontada, depois apareceu um caroço que aumenta a cada dia tomando conta do fígado. Ansiosa espera que alguma colega perceba a mudança, que pergunte a causa do emagrecimento repentino, o cabelo está ralo, a vista fica nublada. Mas ninguém percebe nada...só ela sente o monstro que a está devorando insaciável. Saiu do chuveiro e secou o corpo esquálido com a toalha felpuda. O pijama de flanela vestiu lentamente, as pantufas nos pés seguiu para a cozinha. Na chaleira aqueceu um pouco de água para fazer um chá de camomila. O chá fumegante foi aliviando a dor cortante do estomago vazio, pegou um livro na estante e foi para cama viajar na leitura, antes de adormecer.

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