domingo, setembro 10, 2006

GERVÁSIA II


Gervásia, espichou-se debaixo dos cobertores, sentindo um calor agradável percorrer o corpo. Acariciou a capa do livro e abriu-o na página marcada na noite anterior. Não conseguia entender o motivo de um ateu assumido como Nietzsche ter lançado mão de um carismático líder religioso do passado, fazendo-o veículo da sua mensagem. O pensador alemão racionalmente e intelectualmente deixara de ser cristão, mas psicologicamente e emocionalmente ainda seguiu tendo a mente de um crente, de um religioso. Afinal, Nietzsche era filho de um pastor luterano. O que explica o tom de sermão da sua prosa, carregada de parábolas, simbolismos e imagens litúrgicas e locais sagrados, presentes na maioria dos capítulos do "Assim falou Zaratustra". A escolha também tratou-se de uma provocação, pois o Zaratustra ficcional dele voltou a cena para desfazer o que o real profeta ariano fizera há mais de dois mil e quinhentos anos passados, isto é, criar a idéia do Bem e do Mal.
Zaratustra é pois um Anticristo. Ele não veio do deserto como Jesus Cristo, mas sim desceu do alto da montanha, do fundo da caverna, como viu Platão os filósofos emergirem em busca do sol, em busca da vida. Não se dirige aos pobres, aos humildes, aos doentes, aos perdidos e aos fracos, muito menos lhes promete o Reino dos Céus. Seu público é outro. É o dos vencedores, dos afirmadores da vida, os que querem viver o aqui e o agora, tendo a Terra como seu único rei. A sua meta é atingir uma parte especifica da humanidade, os homens superiores , a quem Cristo ignorou. Zaratustra é sim um Cristo da elite, pois Nietzsche escreveu o evangelho do super-homem - o que anuncia um novo tempo, uma era em que Deus morreu, na qual o Homem se apressa para assumir o poder na totalidade, na qual terá que arcar com as conseqüências morais e éticas de um mundo sem Deus.
Gervásia fecha o livro e fica a meditar sobre o que leu: Nietzsche viveu numa época muito conturbada em 1870, a Alemanha entrou em guerra com a França; nessa ocasião, Nietzsche serviu o exército como enfermeiro, mas por pouco tempo, pois logo adoeceu, contraindo difteria e disenteria. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida.
Colocando o marcador para indicar a página, apaga a luz a espera do sono que não vem. Observa as réstias de luz penetrando furtivas pelas frestas da persiana formando desenhos abstratos no teto. Adormece e acorda com o ruído do despertador alertando que um novo dia, longo dia a espera na repartição. Lembra do porão úmido sem janelas, o ruído roinc roinc da manivela do velho dinossauro alemão e sente uma fincada aguda no abdômen. Precisa levantar, não gosta de pedir visto no cartão ponto porque chegou atrasada. Seis horas da manhã, a geada branqueia os pastos lá fora. O sol insinua-se no horizonte. Gervásia, aperta o estômago pensando na dor que não passa!!!!