segunda-feira, novembro 06, 2006

VENDAVAL



VENDAVAL
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,Não achas, soprando por tanta solidão,Deserto, penhasco, coval mais vazioQue o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceanoFaz louco lugar, caverna sem fim,Não são tão deixados do alegre e do humanoComo a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,Só têm a tristeza que a gente lhes vêE nisto que em mim é vácuo e tristezaÉ o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,Que rasgas os robles - teu pulso dividaMinh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,A alma que tenho pudesses levar -Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéiaDe eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,Mar torvo do caos que parece volver -Porque é que não entras no meu pensamentoPara ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!Horror de sentir a alma sempre a pensar!Arranca-me, é vento; do chão da existência,De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais'scura,Pelo caos furioso que crias no mundo,Dissolve em areia esta minha amargura,Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,Telhados daqueles que têm razão,Atira, já pária desfeito dos ares,O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,Tornado a substância dispersa e negadaDo vento sem forma, da noite sem termo,Do abismo e do nada!
Fernando Pessoa, 16-2-1920.