quarta-feira, janeiro 31, 2007

Florbela Espanca!!!



Quem não ouviu falar de FLORBELA ESPANCA? a poetisa nascida no Alentejo, na cidade de Viçosa em 1894(Portugal). Foi uma das precursoras do movimento feminista. Seus casamentos fracassados a perda do irmão deixaram uma marca profunda na sua obra e vida. Florbela suicidou-se em 1930 em Matosinhos. Com uma personalidade de uma riqueza interior incomum, marcou os seus versos com uma desordem ardente, com um erotismo feminino transcendente, colocando a descoberto a alma da mulher. A sua poesia é intensa de um lirismo profundo e erótico. Sintam a beleza a sonoridade destes versos, são um lamento de uma alma que não encontrou neste plano material um lenitivo.

EU
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...


Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou .

terça-feira, janeiro 30, 2007

TRIUNFO DOS BONS!!!





Ficção sobre o totalitarismo (Eduardo Cândido )
Por graça especial do Partido Benfazejo, fui designado para entrevistar o Grande Líder da Última Boa Nova, e anotar suas palavras de amor e sabedoria para publicação em nosso jornal, a Folha da Verdade, o único que existe. Assim procedi. A primeira coisa que pude observar foi a humildade, o charme, a candura, a singela bonacheirice do Grande Líder que, sentado em almofadas douradas e perfumadas, vestido com uma belíssima sobrepeliz muito condizente com a sua posição e virtude, digna de um sacerdote, demonstrava toda sua resignação e firmeza diante do desconforto causado pelo clima tórrido de nossa região, limpando com um lencinho de seda a transpiração da bela e grande testa, da qual despontava uma inusitada verruga.Nossa conversação foi absolutamente agradável:— Muito bem, agora que todos os inimigos estão esmagados e a memória deles varrida da História, como te sentes liderando os bons, os teus iguais?— Boa pergunta! Eu me sinto confortável, feliz e igual. E esta igualdade me compraz.— Eu também estou feliz! Explique-me, por favor, este excelso gozo.— Pois não. Veja bem, embora o povo esteja passando fome, coberto por chagas da mais negra pestilência, embora toda a moralidade tenha degenerado em manifestações instintivas de auto-preservação e de selvageria primitiva, e a tendência fatal é que as coisas vão piorar de forma horrível pois todos os instrumentos para reverter esse quadro estão totalmente derruídos, ainda assim estamos todos felizes. É uma química.— O povo também está feliz!— Sim, é claro que o povo está feliz, naturalmente, embora tenhamos de suportar injúrias e calúnias de loucos hostis que vivem se escondendo de nós. Não aceitamos a responsabilidade que esses covardes querem nos imputar. Como disse antes, é um processo químico. Isto quer dizer que estamos na estaca zero: a natureza humana tem uma roupagem nova e tudo dará certo.— Que maravilha de pensamento positivista! Perfeito! Mas é lamentável saber que não são todos que pensam assim. É triste, triste!— Sim, é triste, mas tais homens não pensam de fato. Esses opositores não representam problema nenhum. Aliás, a existência deles é essencial para o nosso negócio e eles sempre existirão. Jamais faltarão cabeças para decepar. É uma Lei Histórica: hoje triunfamos aqui, amanhã triunfaremos acolá. Nada pode nos deter e o mundo é nosso.— E que o mundo inteiro aceite esta felicidade!— Sem dúvida, e já podemos vislumbrar este fato. Com efeito, estamos felizes porque também vislumbramos o futuro.— Podes ver o futuro?— Sim. Lá está, no futuro, o mundo perfeito. Estamos felizes porque temos esse projeto.