Gervásia III


Gervásia , molha as suas violetas conversa com elas:- Oi, amadas! O dia está lindo!! O sol desponta os morros com os seus raios alegres, tenham um bom dia! Volto ao entardecer!!!- Enquanto aquece a água na chaleira, coloca o pó para passar o café. O cheiro forte flutua no ar. Ela inspira lentamente e saboreia o líquido fervente enquanto lava a térmica para encher com o café fumegante. Com gestos automatizados pega a bolsa e fecha a térmica, a coloca dentro. Veste o casaco e vai para a parada do ônibus cuja fila já está longa.
Novamente o empurra -empurra, fica a observar disfarçadamente as fisionomias dos passageiros. Uma jovem, quase menina, cabelos longos, olhos castanhos, na testa uma ruga de preocupação, a bolsa apertada no peito, os livros no braço. Imagina quantos sonhos, quantas lutas, o casaco puído mostra a origem humilde. No rosto o traço firme de determinação de quem luta para realizar os sonhos. Desce na parada da Universidade provavelmente uma estudante.
Desvia os olhos da janela e volta a observar os passageiros. Uma senhora já idosa sentada, cochilava agarrando as sacolas, a cabeça pendia no peito, chegava quase a roncar, desvia os olhos. Chegou ao meu ponto, desce rápido. Olha o relógio, está quase atrasada, lembra do cartão ponto e corre segurando a bolsa.
Bate o ponto exatamente 6:59. Desce lentamente as escadas para o subsolo. Já ouve as vozes dos colegas. Vai direto para o mastodonte do seu arquivo. Abre a tampa, pega a sua lupa no esconderijo a pilha de individuais, antes porém limpa o pó da mesa e finalmente senta. Olha em volta. O vaso com o cactos quietinho quase invisível, só ela sabe que existe uma plantinha ali. Larga o vaso e volta para as fichas datiloscópicas. Seu arquivo era só de verticilos, mas dentro dos verticilos existiam inúmeras subclassificações. Estão dizendo que em breve o computador irá fazer as leituras. Não consegue imaginar, uma máquina separando, classificando, contando as linhas, impossível, esse computador teria que ser melhor que o ser humano. Será que o homem irá construir algo mais esperto que o próprio HOMEM?
Olha o relógio, já são dez horas. Hora do lanche, pega a térmica vai até a pia e lava o copo, vários colegas aproveitam para dar uma saída na rua, ir ao banco, comprar um lanche. Nem pensa em comer, aperta o estômago, a bola continua crescendo, doendo para alertar que está ali, devorando as entranhas, faminta. Olha em volta e não enxerga quase ninguém, só a cabeça de uma colega lá no arquivo no fundo da sala. Uma jovem estranha, sempre furtiva não socializa com os demais colegas. Desconfia que a mesma está chorando com o rosto escondido nos braços dobrados na beirada do arquivo. Provavelmente brigou com o namorado, ou levou bomba na prova e deverá repetir o semestre. Coisas sem importância...sem importância...


