segunda-feira, setembro 11, 2006

Gervásia III




Gervásia , molha as suas violetas conversa com elas:- Oi, amadas! O dia está lindo!! O sol desponta os morros com os seus raios alegres, tenham um bom dia! Volto ao entardecer!!!- Enquanto aquece a água na chaleira, coloca o pó para passar o café. O cheiro forte flutua no ar. Ela inspira lentamente e saboreia o líquido fervente enquanto lava a térmica para encher com o café fumegante. Com gestos automatizados pega a bolsa e fecha a térmica, a coloca dentro. Veste o casaco e vai para a parada do ônibus cuja fila já está longa.
Novamente o empurra -empurra, fica a observar disfarçadamente as fisionomias dos passageiros. Uma jovem, quase menina, cabelos longos, olhos castanhos, na testa uma ruga de preocupação, a bolsa apertada no peito, os livros no braço. Imagina quantos sonhos, quantas lutas, o casaco puído mostra a origem humilde. No rosto o traço firme de determinação de quem luta para realizar os sonhos. Desce na parada da Universidade provavelmente uma estudante.
Desvia os olhos da janela e volta a observar os passageiros. Uma senhora já idosa sentada, cochilava agarrando as sacolas, a cabeça pendia no peito, chegava quase a roncar, desvia os olhos. Chegou ao meu ponto, desce rápido. Olha o relógio, está quase atrasada, lembra do cartão ponto e corre segurando a bolsa.
Bate o ponto exatamente 6:59. Desce lentamente as escadas para o subsolo. Já ouve as vozes dos colegas. Vai direto para o mastodonte do seu arquivo. Abre a tampa, pega a sua lupa no esconderijo a pilha de individuais, antes porém limpa o pó da mesa e finalmente senta. Olha em volta. O vaso com o cactos quietinho quase invisível, só ela sabe que existe uma plantinha ali. Larga o vaso e volta para as fichas datiloscópicas. Seu arquivo era só de verticilos, mas dentro dos verticilos existiam inúmeras subclassificações. Estão dizendo que em breve o computador irá fazer as leituras. Não consegue imaginar, uma máquina separando, classificando, contando as linhas, impossível, esse computador teria que ser melhor que o ser humano. Será que o homem irá construir algo mais esperto que o próprio HOMEM?
Olha o relógio, já são dez horas. Hora do lanche, pega a térmica vai até a pia e lava o copo, vários colegas aproveitam para dar uma saída na rua, ir ao banco, comprar um lanche. Nem pensa em comer, aperta o estômago, a bola continua crescendo, doendo para alertar que está ali, devorando as entranhas, faminta. Olha em volta e não enxerga quase ninguém, só a cabeça de uma colega lá no arquivo no fundo da sala. Uma jovem estranha, sempre furtiva não socializa com os demais colegas. Desconfia que a mesma está chorando com o rosto escondido nos braços dobrados na beirada do arquivo. Provavelmente brigou com o namorado, ou levou bomba na prova e deverá repetir o semestre. Coisas sem importância...sem importância...

domingo, setembro 10, 2006

GERVÁSIA II


Gervásia, espichou-se debaixo dos cobertores, sentindo um calor agradável percorrer o corpo. Acariciou a capa do livro e abriu-o na página marcada na noite anterior. Não conseguia entender o motivo de um ateu assumido como Nietzsche ter lançado mão de um carismático líder religioso do passado, fazendo-o veículo da sua mensagem. O pensador alemão racionalmente e intelectualmente deixara de ser cristão, mas psicologicamente e emocionalmente ainda seguiu tendo a mente de um crente, de um religioso. Afinal, Nietzsche era filho de um pastor luterano. O que explica o tom de sermão da sua prosa, carregada de parábolas, simbolismos e imagens litúrgicas e locais sagrados, presentes na maioria dos capítulos do "Assim falou Zaratustra". A escolha também tratou-se de uma provocação, pois o Zaratustra ficcional dele voltou a cena para desfazer o que o real profeta ariano fizera há mais de dois mil e quinhentos anos passados, isto é, criar a idéia do Bem e do Mal.
Zaratustra é pois um Anticristo. Ele não veio do deserto como Jesus Cristo, mas sim desceu do alto da montanha, do fundo da caverna, como viu Platão os filósofos emergirem em busca do sol, em busca da vida. Não se dirige aos pobres, aos humildes, aos doentes, aos perdidos e aos fracos, muito menos lhes promete o Reino dos Céus. Seu público é outro. É o dos vencedores, dos afirmadores da vida, os que querem viver o aqui e o agora, tendo a Terra como seu único rei. A sua meta é atingir uma parte especifica da humanidade, os homens superiores , a quem Cristo ignorou. Zaratustra é sim um Cristo da elite, pois Nietzsche escreveu o evangelho do super-homem - o que anuncia um novo tempo, uma era em que Deus morreu, na qual o Homem se apressa para assumir o poder na totalidade, na qual terá que arcar com as conseqüências morais e éticas de um mundo sem Deus.
Gervásia fecha o livro e fica a meditar sobre o que leu: Nietzsche viveu numa época muito conturbada em 1870, a Alemanha entrou em guerra com a França; nessa ocasião, Nietzsche serviu o exército como enfermeiro, mas por pouco tempo, pois logo adoeceu, contraindo difteria e disenteria. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida.
Colocando o marcador para indicar a página, apaga a luz a espera do sono que não vem. Observa as réstias de luz penetrando furtivas pelas frestas da persiana formando desenhos abstratos no teto. Adormece e acorda com o ruído do despertador alertando que um novo dia, longo dia a espera na repartição. Lembra do porão úmido sem janelas, o ruído roinc roinc da manivela do velho dinossauro alemão e sente uma fincada aguda no abdômen. Precisa levantar, não gosta de pedir visto no cartão ponto porque chegou atrasada. Seis horas da manhã, a geada branqueia os pastos lá fora. O sol insinua-se no horizonte. Gervásia, aperta o estômago pensando na dor que não passa!!!!

Gervásia I


Gervásia olhava insistentemente para o relógio na parede da repartição. As horas escoavam lentamente, já arrumara diversas vezes às fichas dactiloscópicas, espiara pela lente da lupa sem enxergar nada. Revisara as teclas do arquivo examinando, tentando adivinhar pq não funcionava. Era sucata que o governo militar comprara dos alemães para usar na repressão, onde tudo era anotado, cada deslize do cidadão. Aquele arquivo enorme um verdadeiro dinossauro, só girava com a manivela. A manutenção só era autorizada depois das licitações competentes....hoje sabemos o porquê!! Depois dos escândalos dos mensaleiros. Ela puxa a tampa do arquivo, guarda as fichas e a lupa, objeto de grande valor. Quando chegou ao departamento assinou um termo de compromisso, no qual era responsável pela preciosa “lupa”, importada, valia o salário inteiro do mês. Pegou a bolsa, a garrafa térmica e caminhou lentamente para o relógio ponto. A fila já estava formada. Os jovens com brincadeiras impacientes, os funcionários mais antigos com uma postura robotisada indiferentes aos empurra-empurra dos estagiários. A fila lentamente foi chegando ao fim.. Apertando a bolsa com as mãos tremulas seguiu em direção a parada do ônibus. O vento forte e frio, as primeiras estrelas tremulavam no céu limpo do entardecer. A fila do ônibus era grande na hora do pique, finalmente embarcou no coletivo lotado, empurra aqui, um cotovelo nas costelas machucando, foi abrindo caminho até a porta da saída. O cheiro de corpo sem banho exalava causando náuseas. Alguém pediu para abrir uma janela, um olhar feroz respondeu ao pedido desarmando qualquer investida. Dá sinal, não quer perder o seu ponto. Salta no meio fio da calçada esburacada. Uma lufada de vento gelado penetra pelo pescoço desabrigado, levanta a gola do casaco e corre em direção aos blocos de moradia popular. Prédios feios , quadrados, pareciam uns caixotes esburacados sem cor definida. As poucas árvores com os galhos pelados sem folhas formavam estranhos desenhos no lusco-fusco do anoitecer. As luzes do corredor queimadas, chega logo a sua porta no final do corredor. Abre ligeiro e acende a luz. Tudo tão gélido, o sofá puído, a estante com os bibelôs pobres grotescos. Os livros... esses, sim, tinham vida . Uma aura azulada exalava deles prometendo aventuras mil, prazeres inimagináveis. Olhou em volta, largou a bolsa em cima da cama. A colcha de crochê já gasta, a cortina já rala não protegia do vento que assobiava pela persiana entrando nas frestas. Olhou em volta com um olhar sem vida e foi tomar um banho. Despiu-se dobrando meticulosamente às roupas do trabalho, para não amassar colocou numa banqueta aos pés da cama estreita. Ligou o chuveiro, bem quente, pegou o sabonete e a esponja natural. Seus ossos saltavam magros, as carnes haviam sumido. Leu, não sabe onde, que era saudável fazer massagens bem fortes com a esponja nos órgãos internos, anos a fio esfregou o estomago, o fígado, os intestinos, para que os mesmos se mantivessem saudáveis. A princípio foi uma pontada, depois apareceu um caroço que aumenta a cada dia tomando conta do fígado. Ansiosa espera que alguma colega perceba a mudança, que pergunte a causa do emagrecimento repentino, o cabelo está ralo, a vista fica nublada. Mas ninguém percebe nada...só ela sente o monstro que a está devorando insaciável. Saiu do chuveiro e secou o corpo esquálido com a toalha felpuda. O pijama de flanela vestiu lentamente, as pantufas nos pés seguiu para a cozinha. Na chaleira aqueceu um pouco de água para fazer um chá de camomila. O chá fumegante foi aliviando a dor cortante do estomago vazio, pegou um livro na estante e foi para cama viajar na leitura, antes de adormecer.