domingo, novembro 12, 2006

Leituras


QUASE TRISTE. QUASE FELIZ
Maria das Graças Targino (autora)
Hoje, amanheci triste. Triste, mais uma vez. Uma tristeza que, estranhamente, dá paz. A paz que só a consciência de que a nossa vida é a vida que nós mesmos construímos, para o bem ou para o mal . Não culpe ninguém por seus fracassos , por suas dores , por seus desencantos e até por suas vitórias. Tudo é conquista sua . No meu caso , trata-se de opção , acertada ou não , mas é a minha opção : a busca meio compulsiva , é verdade, por viver intensamente , seja lá o que for, sem mentiras ou meias-verdades e, principalmente , sem quase . Não quero ser quase feliz . Recuso a quase amar . Odeio quase odiar . Quero tudo , na íntegra . Sem meios-termos. A saudade , a transformo sempre , de nostalgia em faísca que me leva adiante para me entregar de novo , seja lá a que diabos de sonhos for. Quando a gente se sente sozinho , capta, com mais rapidez , os prenúncios de felicidade . E os deposita no coração , os prende na alma e segue adiante ...
Assim , prefiro ir deixando, pelo meio do caminho de flores e pedras , os quase amigos , os quase inimigos , os quase amores . E continuo sem deixar que o medo e a saudade tornem-se impeditivos para novas tentativas ou novas buscas . Às vezes , é verdade , sorrateiramente , vem o desejo intenso de olhar a “vidapeloretrovisor”, como alguém me disse um dia . Mas só de vez em quando . O resto do tempo , dedico-me a olhar para a frente , a sonhar , a caminhar . É a busca pela sonhada felicidade . São momentos intensos e, às vezes , fugidios , mas que afastam a sensação de vida-velório, e faz da vida uma estranha festa . Uma festa a que se vai, sabendo que há fim . É assim a sensação de felicidade que sempre vivo . Verdade que , um dia , em meio ao meu primeiro e louco amor , pensei que tudo era para sempre . Tudo , imutável . Tudo , eterno , Tudo , para sempre . Só ali . Nunca mais . Cedo , muito cedo , aprendi que nada é para sempre . Em oposição , tudo pode ser de verdade .
E em tudo isto , uma certeza – uma única certeza . A de que prefiro o sim ou o não ao quase ou ao talvez . É exatamente o talvez que me entristece. A certeza de que , desta vez , quase amei, quase fui amada . Afinal o quase é uma pedra no meio do caminho . Não precisa ser a pedra de Carlos Drummond. Todos nós temos as nossas próprias pedras . Quem quase foi feliz , não o foi. Quem quase ganhou nas loterias repletas, a cada final de semana , prossegue jogando. Quem quase finalizou um livro sonhado, não o fez. Quem quase pôs para fora as mágoas contidas diante do amigo , quase amigo , continua engasgado de pesar . Quem quase foi traído, continua acreditando na traição como fantasma sem cor .
Afinal , nada expressa tão bem a impossibilidade de compreender a vida como a sensação densa ( mas não morna ) de ser quasetriste e, ao mesmo tempo, quasefeliz. Novamente, mais uma opção: ou passamos a vida, tentando compreendê-la ao dissecá-la como os legistas o fazem diante de um corpo sem vida, ou a vivemos, sofregamente, usufruindo a magia da própria vida, distante de uma quase vida. De que serve uma vida outonal, em que o verde não é verde e as folhas não são secas, de fato? Tudo é odiosamente quase!

A PERGUNTA!!!


A pergunta
Franz Kafka
Só a nossa noção de tempo nos faz pensar em Juízo Final, quando é de justiça sumária que se trata. O suicida é como o prisioneiro que, vendo armar-se uma forca no pátio, imagina que é para ele - foge de sua cela, à noite, desce ao pátio e pendura-se ao baraço. Os mártires não menosprezam o corpo, apenas fazem-no pregar à cruz: é no que estão de acordo com seus adversários. As portas são inumeráveis, a saída é uma só, mas as possibilidades de saída são tão numerosas quanto as portas. Há um propósito e nenhum caminho: o que denominamos caminho não passa de vacilação. Os leopardos invadem o Templo e esvaziam os vasos sagrados... O fato não cessa de reproduzir-se; até que se chega a prever o momento exato e isso entra a fazer parte do ritual. Os bons vão a passo certo; os outros, ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa. Outrora eu não podia compreender que minhas perguntas não obtivessem resposta; hoje em dia não compreendo que jamais tivesse admitido a hipótese de formular perguntas... Bem, eu não acreditava então em coisa alguma - só fazia perguntar.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Sossega, coração! Não desesperes!


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, somente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Fernando Pessoa, 2-8-1933.

VENDAVAL



VENDAVAL
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,Não achas, soprando por tanta solidão,Deserto, penhasco, coval mais vazioQue o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceanoFaz louco lugar, caverna sem fim,Não são tão deixados do alegre e do humanoComo a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,Só têm a tristeza que a gente lhes vêE nisto que em mim é vácuo e tristezaÉ o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,Que rasgas os robles - teu pulso dividaMinh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,A alma que tenho pudesses levar -Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéiaDe eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,Mar torvo do caos que parece volver -Porque é que não entras no meu pensamentoPara ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!Horror de sentir a alma sempre a pensar!Arranca-me, é vento; do chão da existência,De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais'scura,Pelo caos furioso que crias no mundo,Dissolve em areia esta minha amargura,Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,Telhados daqueles que têm razão,Atira, já pária desfeito dos ares,O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,Tornado a substância dispersa e negadaDo vento sem forma, da noite sem termo,Do abismo e do nada!
Fernando Pessoa, 16-2-1920.